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Em tempos de relações tão fugazes a permanência é a exceção. Relações essas não somente entre indivíduos, mas também com os objetos cotidianos, aparelhos, ferramentas das atividades comuns do século 21. O plástico predomina, datas de validade, reciclável, descartável.

A revista 22 chega em sua segunda edição e dois anos de existência. A consistência do papel tingido pela tinta e o cheiro da impressão se sobrepõe às telas de LCD dos ostentosos smartphones conectados ao universo digital. As imagens digitais se perdem em meio às relações superficiais das redes sociais. A presença física é obrigatória para que a interação observador-imagem seja alcançada entre o espectador e o produto final dos integrantes do fotoclube Bulb f/22. É nosso documento, o resultado de nossas atividades fotográficas ao longo do ano, uma celebração ao fazer fotográfico de pessoas que escolheram a captura do espaço-tempo como meio de expressão.

Essa aparente aversão às redes sociais tem início no momento que algumas fotos são censuradas pelo seu conteúdo fora dos padrões de moralidade impostos pelas grandes corporações que controlam as redes sociais. As redes são ferramentas contemporâneas que dificilmente poderíamos nos ausentar, as utilizamos com intenção de comunicar fatos e atividades do grupo, pois a maior parte de nossas imagens não nos concederiam espaço entre postagens diárias de pessoas de ética e moral aceitos. As grandes corporações do século 21 dando as regras de comportamento e veiculação de conteúdo. Para nossa sobrevivência no mundo digital nos adaptamos. Não postamos fotos que podem ser consideradas em desacordo com as regras desse jogo anacrônico. Por outro lado, a alternativa foi criar uma ação que chamamos de Flash Photo Day, os encontros abertos ao público promovidos para dar acesso aos interessados às nossas dependências, dinâmicas de convivência e produção, acesso aos fotógrafos e seus respectivos processos criativos permeados por boa conversa, música e diversão. As imagens impressas ficam expostas para o contato com todos os ali presentes. A relação observador-fotografia é concluída sem reservas de conteúdo.

Daí surge a revista 22, numa subversão ao mundo digital manipulado pelas grandes corporações. Uma pequena rede de pessoas interessada no mesmo assunto e com os mesmos propósitos.

Nas imagens constatam-se a diversidade de olhares e temas abordados. A Fotografia de rua é muito bem representada pelo bressoniano André de Oliveira de Andrade. Munido de seu aparelho mobile, influenciado pela escola europeia de fotografia de rua, passa despercebido pelo fotografado e registra imagens simples do dia a dia, transformando cenas corriqueiras em imagens que bem representam o instante decisivo, vanguarda desenvolvida pelo pai do fotojornalismo moderno.

O gênero mais fotografado da história, o retrato se faz presente na produção de vários fotoclubistas. Destaque para Yago Moreira que com uma produção pungente, diversifica seu trabalho misturando os retratos à técnicas do século 19 para obter imagens de estética extremamente interessantes.
As interferências em papel fotográfico são de responsabilidade de Andrea Damasceno, uma artista visual que utiliza a fotografia como parte de sua produção. O trabalho manual intervém na cópia de maneira qie se torna impossível criar cópias. Sendo assim, sua produção se torna única e original.

O viés fotojornalístico é de autoria de Amanda Lima, que com olhar crítico e espírito desbravador, faz um trabalho corajoso em ocupações de moradia na cidade. Não só registrando suas fotografias e contando histórias, mostrando uma realidade que grande parte das pessoas desconhece, mas ajudando esse grupo desfavorecido da sociedade angariando recorrentes doações.

Em uma imagem de mensagem e tons sutis, este que vos escreve, fotografou com câmera de grande formato, em chapa de 4”x 5” e utilizou o processo que ficou conhecido nos anos 80 e 90 por “cruzado”, muito utilizado no Brasil por fotógrafos do porte de Klaus Mitteldorf.

Se faz presente nessa edição, o que ficou conhecido entre os membros do fotoclube, a foto do nosso senhor Jesus Cristo. Num autorretarto de Marcio Neves, a imagem que faz um questionamento da interpretação do simbolismo de um objeto, foi acintosamente arrancada da parede durante um grande festival de fotografia em virtude do proprietário do imóvel ser católico e não concordar com o conteúdo da imagem. A intolerância presente num ambiente de expressão artística é simplesmente inaceitável.

Foto de capa é assinada por Felipe Bataglia numa triste mensagem de um momento trágico de nossa sociedade. Jovens não vendo outra alternativa por não alcançarem ou não vislumbrarem uma possibilidade de atingirem um sucesso que lhes foi apresentado como regra, tiram suas próprias vidas num rompante de desespero e angústia. Mas o que é esse sucesso?

O fotoclube Bulb f/22 encerra o ano de 2018 realizando atividades importantes para dar início ao seu quinto ano de existência. As produções fotográficas realizadas e apresentadas pelos seus integrantes no decorrer do ano, consolidam sua existência e práticas similares aos tradicionais fotoclubes do século 20. Em contrapartida às relações superficiais do mundo digital e as redes sociais, a presença física tem importância fundamental para a interação com o fotógrafo.

Os encontros mensais cumprem essa tarefa e como uma grande novidade, foram abertos ao público.

O destaque do ano reside na participação do Festival Zum, que aconteceu no Instituto Moreira Sales em São Paulo. O IMS já se tornou o maior polo de fotografia do país. Num moderno prédio situado na avenida Paulista, a democracia é praticada dando acesso gratuito à exposições e uma farta biblioteca. Em uma iniciativa exemplar, organizou um festival de fotolivros abrindo espaço não somente às editoras estabelecidas no mercado, mas também para pequenas organizações. Esse festival abriu as portas para que a 22 atingisse um público interessado por grandes talentos da fotografia.

O Brasil está prestes a enfrentar um período recheado de incertezas políticas e culturais. Cultivar a motivação e o trabalho contínuo com o objetivo de manter a fotografia expressiva com conteúdo crítico vai enfrentar uma série de dificuldades. “Dias estranhos estão chegando” Jim Morrison.

Os fotoclubes que ocuparam um importante papel no desenvolvimento da fotografia expressiva brasileira parecem estar em um perene estado de hibernação e não ter acompanhado a evolução tecnológica e cultural. Os coletivos fotográficos, criados nos anos 2000, parecem preencher esse espaço.

Os fotoclubes não devem desaparecer, se faz necessário uma adaptação aos tempos atuais e um ponto muito importante é manter as relações presenciais, olho no olho, sentir a reação do outro, tocar o papel, trocar a experiencia. Esse é um ambiente de estímulo à produção pictórica daquele que escolheu a fotografia como forma de expressão.

Para o ano que se inicia fiquemos atentos as mudanças comportamentais da sociedade para fazermos frente às mentes obtusas e reacionárias. Continuemos a produzir imagens que joguem luz no caminho dos jovens que aí estão prestes a serem cobertos pela sombra da ignorância.

A fotografia resiste e o fotoclube Bulb f/22, servo da fotografia, é apenas um lugar livre das rédeas do pensamento retrógrado, onde a liberdade de criação é respeitada e aceita. No momento de nossa inauguração a diversidade foi a primeira característica observada, hoje percebemos a assertividade na escolha.

“Viva a fotografia!”

Editor: Rodrigo Zugaib
Conselho editorial: André de Oliveira de Andrade / Felipe Bataglia / Marcio Neves / Rodrigo Zugaib / Yago Moreira
Diretor de Arte: Anderson Ferrari
Tráfego de arquivos digitais: Felipe Bataglia
Assistente: Yago Moreira
Impressão: IPSIS Gráfica e Editora
Jornalista responsável: Larissa Dueire
Imagem da capa: Felipe Bataglia
Fotografia: Amanda Lima / André de Oliveira de Andrade / Andrea Damasceno / Camila Vech / Danielle Quartarolli / Felipe Bataglia / Ingrid Silva / Marcio Neves / Rodrigo Zugaib / Yago Moreira

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A fotografia teve sua descoberta em diferentes localizações do mundo acontecendo simultaneamente, com pesquisas e experiências em diversos países, sendo mais reconhecidos a França e Inglaterra, apesar de o Brasil ter sua parcela de participação com o desenhista francobrasileiro Hércules Florence, o primeiro a usar a expressão “fotografia” para o processo mecânico de gravação de uma imagem durante suas experiências, como bem nos ensinou o prof. Boris Kossoy.

A recepção desse novo processo foi positiva, o interesse da sociedade pela nova atividade resultou num rápido desenvolvimento da prática e consequentemente uma evolução nos processos fotográficos. Uma vez que o assunto era uma novidade, a troca de informação entre os praticantes se dava através da associação de interessados e curiosos. Dessa forma, surgiram os primeiros fotoclubes a partir de meados do século XIX. Estes funcionavam como pontos de encontro para que houvesse interação entre os praticantes da fotografia.

No Brasil, há registros de que os fotoclubes iniciaram suas atividades a partir da segunda década do século XX. O nome mais expoente é do paulista Foto Cine Clube Bandeirante, fundado em 1939 e em atividade até os dias atuais. Por ele passaram nomes relevantes da fotografia brasileira, como Thomaz Farkas, German Lorca e Geraldo de Barros, entre tantos outros. É de responsabilidade desse fotoclube o surgimento da vanguarda fotográfica “Escola Paulista de Fotografia”, marco na passagem da fotografia brasileira em direção a fotografia moderna.

Inspirado nesse fotoclube vanguardista, alguns fotógrafos se uniram em 2015 para criar o Fotoclube Bulb f/22. Não que houvesse a pretensão de ser um fotoclube oficial, registrado na Confederação Brasileira de Fotografia, mas um grupo de fotógrafos engajados em criar um ambiente de discussão e produção de fotografia não comercial.

Um questionamento frequente entre os membros do Bulb f/22 se dava a respeito do nosso posicionamento diante dos coletivos de fotografia presentes no cenário atual. Dentre debates acalorados ficou estabelecido que formamos um grupo, uma vez que somos muitos e com produções, olhares, motivações e iniciativas diferentes. Não nos compreendemos como um coletivo, somos vários indivíduos trabalhando em conjunto respeitando suas diferentes escolhas e individualidades.
O nome Bulb f22 advém de longas caminhadas madrugada adentro em Amsterdam, onde foi realizado um ensaio de fotografia noturna, pelo diretor do Bulb Rodrigo Zugaib, chamado “Night Watch”. O nome do ensaio não é mera coincidência, inspirado no quadro de mesmo nome do pintor holandês Rembrandt, referência para os fotógrafos por sua capacidade de representação da luz em suas obras, deu-se início a uma produção de fotos durante as frias madrugadas. Através da técnica de longas exposições, a mensagem que mais se fazia presente no visor da câmera digital era “bulb f/22”.

Sob profunda admiração do fotógrafo americano Alfred Stieglitz, precursor na exposição de fotografias em museus como forma de expressão, fundador da Vanguardista Galeria 291 e editor da influente revista Camera Work, nos inspirou para tomarmos caminhos semelhantes.

A Revista 22 surge em contraponto ao comportamento atual das milhares publicações de fotos nas plataformas digitais. A fotografia não deve se submeter somente ao impulso elétrico do sensor digital e ao brilho do pixel no monitor. A tinta penetrando o papel revela o enquadramento da objetiva. A luz projetada na pequena placa de dióxido de silício de uma fração de segundo nos direciona para uma fotografia que ainda necessita permanecer no mundo físico, palpável, tangível.

Na primeira edição, de número zero, são 15 fotógrafos responsáveis pelas imagens. As fotos presentes na publicação ratificam nosso fazer fotográfico e reiteram nossa diversidade estética. Divididas em séries e fotos individuais, a gênese dos processos criativos está impressa em nossas páginas.

O grupo de fotógrafos Bulb f/22 é a comprovação de que a diversidade entre as pessoas, suas diferentes formas de ver, variação de discurso e representação podem habitar o universo fotográfico. Celebramos a tolerância. Nesse ambiente de criação e questionamento sobre a produção atual de fotografia, abrimos uma via de acesso para aqueles que compactuam com nossos ideais e princípios. Celebrando a vida, o inigualável fotógrafo Thomaz Farkas nos ensinou: “Viva a fotografia!

Editor: Rodrigo Zugaib
Conselho editorial: André de Oliveira de Andrade / Chico Castro / Rodrigo Zugaib / Tiago Marin / Tiago Tagawa
Diretor de Arte: Anderson Ferrari
Tráfego de arquivos digitais: Tiago Tagawa
Assistente: Yago Moreira
Impressão: IPSIS Gráfica e Editora
Jornalista responsável: Larissa Dueire
Imagem da capa: Felipe Bataglia
Fotografia: Álvaro Grave / André de Oliveira de Andrade / Andrea Damasceno / Cadu Torres / Cecilia Vellutini / Chico Castro / Felipe Bataglia / Lais Namura / Marcio Neves / Rodrigo Zugaib / Shyrley Manfio / Tiago Marin / Tiago Tagawa / Val Coe / Yago Moreira

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